Diário dos Trinta

Diário de um trintão lisboeta.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Scanner de Mãe

Mãe querida;

Quantas vezes vou ter que te dizer: "Cresci, já não tenho cinco anos!". Quantas vezes? Sei que o teu olhar é um olhar de amor, mas por vezes exagera. Não o fazes por mal, bem sei, mas essa lupa microscópica, essa força do olhar ocupa demasiado espaço em mim.

"Estás pálido!... Estás vermelho!... Estás gordo!... Estás magro!... Comeste tão pouco. Comeste tanto. Estás doente? Estás melhor?"

Todos os filhos sabem que é por amor. Mas mãe, não te consigo explicar melhor, já cresci. Sou capaz de decidir o melhor e o pior para mim, mesmo quando não concordas com as escolhas. Preocupo-me comigo quando é necessário, e relaxo quando é possível.

Claro que erro também, mas tu não erras também?

É que cada vez que me lanças um olhar com esse teu scanner é como se perdesse a identidade, como se voltasse a ser apenas teu filho, com cinco anos. Mas fica uma grande confusão, porque se por um lado fico a sentir-me com cinco anos, cá dentro habita um adulto de trinta anos que quer sair.

E depois, ainda por cima, vens sempre com os "inhos". "Então fofinho... Tás melhorzinho..." Por favor não! inhos e inhas não! Principalmente quando te referes a mim, aos meus estados físicos e emocionais.

Fazes-me sentir uma criança que tento todos os dias deixar de ser. Olhas para mim com o amor que me tinhas quando com cinco anos eras o centro do meu mundo.

Obrigado mãe por me amares, mas vê-me como sou hoje, um adulto, com qualidades e defeitos, teu filho, mas um adulto.