Diário dos Trinta

Diário de um trintão lisboeta.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Família

Há muitos limites ao que conseguimos fazer, dizer, pensar na nossa vida. A finitude deste plano terrestre assim o obriga.

Esta últimas semanas tives os meus pais doentes: a mãe com problemas de mobilidade, o pai com uma operação de urgência.

Não tenho uma família grande, mas mesmo que tivesse, julgo que não conseguiria deixar de sentir uma certa angústia por ver os meus pais, a minha piscina genética, em tal estado.

Sei que se diz que é natural para a ordem do mundo que os pais morram antes dos filhos, mas encarar assim a sua finitude é assustador. Como se ainda não estivessem resolvidos os pontos de uma infância estranha e cheia de interregações (não são todas assim?).

Amamos os nossos pais, mas talvez lhes devessemos mais amor do que aquele que damos. Agora olhando para a sua recuperação fico contente de ainda ter a oportunidade de gozar a sua companhia.

Mas quando tem de ser tem de ser. Mesmo que os amemos muito, mesmo sem nada por dizer, mesmo cheios de dúvidas, e até por vezes de ódios, quando chega a altura chegou.

Vou-lhes ligar ... e dizer o quanto gosto deles ... afinal são os meus pais.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Scanner de Mãe

Mãe querida;

Quantas vezes vou ter que te dizer: "Cresci, já não tenho cinco anos!". Quantas vezes? Sei que o teu olhar é um olhar de amor, mas por vezes exagera. Não o fazes por mal, bem sei, mas essa lupa microscópica, essa força do olhar ocupa demasiado espaço em mim.

"Estás pálido!... Estás vermelho!... Estás gordo!... Estás magro!... Comeste tão pouco. Comeste tanto. Estás doente? Estás melhor?"

Todos os filhos sabem que é por amor. Mas mãe, não te consigo explicar melhor, já cresci. Sou capaz de decidir o melhor e o pior para mim, mesmo quando não concordas com as escolhas. Preocupo-me comigo quando é necessário, e relaxo quando é possível.

Claro que erro também, mas tu não erras também?

É que cada vez que me lanças um olhar com esse teu scanner é como se perdesse a identidade, como se voltasse a ser apenas teu filho, com cinco anos. Mas fica uma grande confusão, porque se por um lado fico a sentir-me com cinco anos, cá dentro habita um adulto de trinta anos que quer sair.

E depois, ainda por cima, vens sempre com os "inhos". "Então fofinho... Tás melhorzinho..." Por favor não! inhos e inhas não! Principalmente quando te referes a mim, aos meus estados físicos e emocionais.

Fazes-me sentir uma criança que tento todos os dias deixar de ser. Olhas para mim com o amor que me tinhas quando com cinco anos eras o centro do meu mundo.

Obrigado mãe por me amares, mas vê-me como sou hoje, um adulto, com qualidades e defeitos, teu filho, mas um adulto.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Coisas do corpo

Ontem fui a um encontro de amigos, que decidimos fazer há já algum tempo. Não estava á espera, mas no fundo sabia que ela estaria lá. A Laura é apenas uma das minhas confusões relacionais. Estou cada vez mais convicto que com o avançar da idade as coisas vão se tornando cada vez mais complexas, e olhando para trás duvidamos que realmente as relações fiquem esclarecidas, resolvidas, ordenadas como tanto gostaríamos.

A Laura é a minha ex-ex-namorada. Na altura em que estivemos juntos, passámos por momentos muito bons, mas também por momentos bastante complicados. No fim da relação, fui eu que declarei o fim que já se anunciava, mas ambos sabíamos da sua vinda.

Durante algum tempo não mantivemos contacto, mas com o passar do tempo fomos trocando algumas palavras pelo messenger, alguns telefonemas e chegámo-nos a encontrar. Não o posso garantir, mas por vezes sinto que ela ainda gosta de mim. E eu? Eu gosto dela, mas acho que de um ponto de vista mais físico. Mais elementar.

Aliás é curioso, porque durante o tempo em que estivemos juntos as relações sexuais foram sempre boas, mas não óptimas, faltava sempre qualquer coisa.

Não sei ao certo o que aconteceu, mas se calhar o fim da relação fez-nos equacionar as coisas que não fizemos, ou que tivemos medo de fazer, e passado tanto tempo, agora que nos cruzámos de novo, e que voltamos a "dormir" juntos, vivi uma das experiências sexuais mais afirmativas da minha vida.

Foi como se condensasse numas horas tudo o que fantasiei durante a minha vida. Depois era ela: "Fica cá a dormir!" e eu a dizer "Não, prefiro ir para casa!"

E fui para casa, com a certeza de ter vivido uma das maiores experiências sexuais de sempre.

Mas o mais estranho foi o sentimento de que, apesar de ter sido muito bom, não poderia voltar a acontecer. Não me apetece agora explicar o conjunto de razões que me levaram a essa decisão, no entanto, senti-o.

Mas ontem, quando a vi, e das vezes que olhava para ela através do canto do olho, só pensava o quanto me apetecia voltar a estar com ela, a fazer aquelas coisas que tinha experimentado com ela e que foram tão boas.

Que caos emocional... Será possível gostar de várias mulheres ao mesmo tempo? Será possível desejá-la, querê-la e não amá-la?

Diários e a vida das pessoas

Com os meus quase trinta e dois anos tenho passado algum tempo a analisar a minha vida pessoal. Quando comparada com a vida de outras pessoas, mais ou menos célebres, não acho que tenha nada de particularmente relevante que possa transmitir, mas sinto acima de tudo que todos temos algo que queremos dizer.

Tenho lido na diagonal algumas biografias e alguns diários de autores ou personalidades portuguesas. Aquilo que mais me marcou foi pensar que eu, como filho, como neto, como sobrinho, como amigo, como vizinho iria valorizar, estimar, interessar-me até pela história e pela vida dessa pessoa.

Olho para trás, para a vida dos meus avós, e é com alguma tristeza que encaro esse vazio misterioso que eles deixaram. Uns conheci-os melhor, outros não tanto, mas todos viveram vidas que por certo mereciam ser eternizadas nas palavras. Até porque o seu neto queria aprender e perceber mais sobre eles. Queria descobrir nele o que vinha de trás.

Não quero que aconteça o mesmo no futuro. E por isso dedico-me este diário: a mim, e a todos os que o quiserem ler.

Boa viagem.